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BANCAS REDUZEM REVISTAS E OFERECEM SERVIÇOS PARA SOBREVIVER ÀS MÍDIAS DIGITAIS

Elinaldo Cacau defendeu o TCC de sua graduação em Gestão Financeira tratando do tema banca de revistas. (Foto: ATUAL)


Barbeador, máscara de pano e descartável, chip, carregador, capa e película de celular, fone de ouvido, pilha, aparador de unhas, sombrinha, guarda-chuva, porta cartão com cordão, óculos escuros, unha de silicone, brinquedos (pop it e polvo do humor de pelúcio), cópias de documentos, plastificações, serviços públicos digitais, compartilhamento de sinal de internet, caneta, recarga de bateria de celular, absorventes, preservativos…

Esses são alguns produtos oferecidos pelas bancas de revistas em Manaus nos últimos dez anos. As revistas ainda estão nas prateleiras, mas são poucas. Com a mudança, os donos de bancas buscam sobreviver ao avanço das mídias digitais, que ‘roubaram’ o leitor das publicações impressas, como revistas e jornais.

Proprietários dos estabelecimentos afirmam que o faturamento caiu 50%, em média. A situação piorou com a pandemia de Covid-19. As perdas subiram para 80%, em média, entre 2020 e 2021. Em alguns casos, o prejuízo foi total. Dívidas e a falta de renda resultou em fechamento de pontos ou mudança de ramo.

As bancas são autorizadas a comercializar ou oferecer revistas, jornais, livros impressos de caráter cultural, selos, envelopes, cartas pré-franqueadas, adesivos postais, reproduções xerográficas, plastificação de documentos, água, refrigerante, cigarros e artigos de bomboniere. A luta da categoria é incluir conveniência e variedade entre as permissões e ampliar a lista de produtos.

Demanda popular

Elinaldo Cacau de Souza, de 51 anos, é o atual permissionário da banca de revistas no final da rua Lima Bacuri, instalada desde 1989 próximo ao antigo Cine Guarany, onde funciona uma agência do Banco Itaú. Ele explora o local há dez anos e mudou o nome para Banca Kakal. E desde o início procurou diversificar os produtos oferecidos.

“Quando eu vim para a banca comprei um lote de vinis e livros antigos de um amigo e coloquei para vender. Esgotou rapidinho. Foi um início muito promissor”, lembra.

Com o tempo e com a crise ocasionada pela mudança de hábito para a leitura on-line, ele buscou outras saídas. De publicações, atualmente ele vende pouco, apenas caça-palavras, revistas de pintura com temas infantis e de artesanato. Com grande variedade de produtos e serviços, ele explica que o “mix” de produtos atende à demanda dos clientes. “Vendemos de acordo com o que procuram”, diz.

A partir dessa observação ele oferece o que pedem. Até energia para carregar bateria de celular. “Comecei fazendo por gentileza. Mas com o auumento da tarifa hoje sou obrigado a cobrar”. A recarga elétrica do aparelho celular custa 3 reais, independente do tempo utilizado. “Quem tem tempo, fica até atigir 100%. Quem está com pressa, dá a carga que precisa e vai embora”.

Mas a maior parte da receita que ainda permite a ‘sobrevivência’ da banca Kakal vem da venda autorizada de passagens de ônibus para o cartão cidadão e passe estudantil. Essa realidade é atribuída por Elinaldo à localização da banca, próximo ao Colégio Amazonense Dom Pedro II, também conhecido como Colégio Estadual, de uma agência bancária e uma parada de ônibus de grande fluxo.

Formado em Gestão Financeira em 2019, Elinaldo tratou do tema em seu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), com o título “O processo do planejamento financeiro para uma banca de revistas”. Durante o curso, outros trabalhos acadêmicos versando sobre a gestão e o futuro das bancas foram apresentados em diversas disciplinas. Sempre defendendo a diversificação, a autorização para atuar como miniloja de conveniência, podendo expandir a oferta de produtos.

Na Avenida Eduardo Ribeiro que concentra o maior número de bancas de revistas na cidade, também no Centro de Manaus, a permissionária Waldecy Barreto, de 52 anos é outra que ‘se vira’ desde o ano 2000, quando começou a crise no mercado de publicações e revistas. “Primeiro deixaram de distribuir jornais de outros Estados. Depois os jornais locais. Em seguida as revistas semanais. Tudo agora é oferecido e lido pela internet”, afirma.


Waldecy Barreto é outra permissionária que diversificou a oferta de produtos para manter o negócio. (Foto: ATUAL)


Quando começou a nova realidade, Wal (como é conhecida no ramo) buscou saídas. “Na época pesquisamos quais seriam as melhores alternativas. Começamos com xerox, plastificação e bomboniere. Depois vieram os acessórios para celulares, como chip e carregador”, relata Wal, que segue os passos da mãe, Rosinete Barreto, primeira permissionária do local.

Em meio ao processo de recuperação e observação das demandas dos clientes para adapatação a um novo mercado, vieram os decretos governamentais e o fechamento das bancas por longo período em razão da Covid-19. Após a liberação, as máscaras, de pano (R$ 5) e descartáveis (R$ 2), representam boa parcela da receita da banca, dando fôlego ao negócio. Entre as publicações, as revistas coquetéis (de palavras cruzadas) e mangás, quando vende.

Apenas apostilas

Existe também quem optou por caminho diferente. Legildo Macedo, de 66 anos, explora a Banca Amazônia há 30 anos, localizada na rua José Paranaguá, quase esquina a rua Guilherme Moreira, também no Centro. Ele vivenciou a época áurea de vendas. “Revistas, bombonieres, selos, fichas telefônicas para orelhões. Jornais, desde o Rio Grande do Sul até o Liberal (do Pará). Muitos turistas. Fluxo de vendas muito boa”, relembra.

Atualmente ele optou por um segmento específico: apostilhas para concursos, vendidas em média por R$ 70. “Já tentei vender produtos eletrônicos, como fone de ouvido e cabo de celular (carregador), mas havia muita reclamação de defeitos. Deixei por isso”, disse Legildo, em meio a centenas de apostilas, meia dúzia de sombrinhas, duas bolsas e as últimas peças de acessórios para celular que ainda resistem no expositor.

Legildo se queixa da falta de apoio governamental durante o período da pandemia. “Ficamos fechados 3 meses em 2020 e 2 meses em 2021. Não teve uma ajuda, um auxílio, nem municipal, nem estadual, nem federal”, reclama.

Legildo Macedo viveu os bons tempos das bancas de revistas mas resolveu apostar em venda de apostilas. (Foto: ATUAL)


Tradicionalismo

Praticamente ‘remando contra o correnteza’, tem quem prefira sobreviver do tradicional. O casal Maria de Fátima Mascarenhas, 63 anos, e Manú Bastos, 64, mantém a venda de revista e publicações na banca Dr. Fajardo, situado em frente ao Hospital Infantil de mesmo nome, na Avenida Joaquim Nabuco, Centro.

Com muita dificuldade, explicam. Além da retração do mercado em razão das novas tecnologias de leitura, Fátima ainda aponta outros dois graves fatores desde 2019: a falência da Dinap (Distribuidora Nacional de Publicações), que impossibilita a atualização das edições, e a pandemia de Covid-19, que afetou a renda das pessoas e afastou os clientes.

“Muitas pessoas relatam que gostariam de continuar comprando, porém não têm renda suficiente”, afirma Fátima, que está no ramo há 27 anos. Ela ressalta que a falência da distribuidora nacional reduziu o recebimento de revistas a “apenas 5% do total de publicações”.

O casal aposta em outras alternativas para manter o negócio. Em julho a banca comemorou 27 anos de atividades e com doações de fornecedores ofereceu brindes aos clientes. Outra promoção idêntica está sendo preparada para o Dia das Crianças, com kits infantis. “Antigamente a categoria se reunia para confraternizar, comemorando o Dia do Jornaleiro, celebrado em 30 de setembro. Hoje lutamos para sobreviver”, diz Fátima.

Em 1992 havia mais de 400 bancas registradas em Manaus. Atualmente embora os números oficiais indiquem 170 bancas em funcionamento, os permissionários arriscam que o número não chega a 50. “Muitas fecharam ou mudaram de ramo”, garante Fátima, que se tornou uma líder informal da categoria, depois do desaparecimento do Sindicato dos Jornaleiros.

Aspecto interno da Banca Dr. Fajardo, que mantém a tradição de venda de publicações. (Foto: Murilo Rodrigues/ATUAL)


A Banca Chile, em funcionamento há 42 anos na rua Major Gabriel, ao lado do Cemitério São João Batista, também busca sobreviver apenas de vendas de publicações, bomboniere e cigarros, diz o permissionário Antônio Hildebrando da Costa, de 59 anos.

“O impacto com a migração para on-line foi grande. As vendas caíram mais de 50% por cento. Até antes da pandemia a gente ainda estava resistindo. Com a pandemia foi terrível, praticamente parou tudo, até hoje”, afirma.

Hildebrando diz que as vendas de “coquetéis da Ediouro, publicações e revistas de super heróis e álbuns da Pannini” ainda sustentam o negócio.

*AMAZONAS ATUAL 

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