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BIOPLÁSTICO JÁ É REALIDADE EM MANAUS, MAS FALTA INTERESSE DAS EMPRESAS

Cientista Flávio Freitas exibe plástico biodegradável com nanocelulose de camu-camu
 (Foto: Walter Franco/
ATUAL)


Desde que a Lei Municipal nº 485 entrou em vigor em Manaus, no dia 1º de outubro, os supermercados passaram a vender a sacola plástica a preços que variam de R$ 0,03 a R$ 0,25. A proposta da lei é incentivar o consumidor a usar sacolas próprias de materiais biodegradáveis e evitar o acúmulo de plástico no meio ambiente.

Pesquisadores do CBA (Centro de Biotecnologia da Amazônia) em Manaus afirmam que a medida mais eficaz seria incorporar o “bioplástico” na indústria e oferecer o saco biodegradável nos estabelecimentos comerciais.

Esse bioplástico, em específico, é derivado de amido. Ele é renovável, não possui reagente tóxico, não se perpetua no meio ambiente e não deriva de petróleo. Flávio cita uma vantagem adicional: “Com esse plástico é possível, sim, criar sacolas mais resistentes até do que essa que se tem no mercado”.

“A gente utiliza as nanoceluloses para dar resistência ao material, então é possível que essa sacola transporte um peso maior”, diz. O único empecilho é a falta de adesão da indústria a essa alternativa.


“Sai muito mais barato [continuar como está]. Até a indústria se organizar para começar a produzir essas sacolas biodegradáveis, leva um tempo. Então, toda mudança que se faz em uma indústria é cara e leva tempo para obter esse retorno, por isso que há resistência”, afirma Flávio.

O doutor em Química explica que o protótipo é composto por nanocelulose incorporada com extrato de camu-camu, fruta típica da Amazônia. Ao apontar para a mesa repleta de amostras, esclarece que do açaí, do tucumã e da palma é possível extrair “diferentes celuloses”.


Plástico produzido com nano celulose de camu-camu é alternativa às sacolas plásticas
(Foto: Walter Franco/
ATUAL)


“A gente sempre pensa em aproveitar tudo isso porque, por exemplo, toneladas de sementes de açaí são geradas todos os dias e nós confirmamos aqui que elas têm um alto potencial como fonte de celulose porque a composição delas é de 70% celulose. A madeira, que é normalmente utilizada, possui em torno de 40%. Então, por que não aproveitar esse resíduo para a produção de celulose?”, diz.

É possível transformar essa matéria-prima natural em embalagens “ativas” que, além de proteger os alimentos, os conservam por muito mais tempo. “Aqui, a gente já viu que a uva conservada com esse material dura oito dias a mais do que conservada com o plástico normal”, afirma o cientista.
Embalagens ativas

Tucumã, buriti e pupunha. O que essas frutas, no âmbito da ciência dos alimentos, têm em comum é o betacaroteno – um pigmento laranja do tipo carotenóide antioxidante e precursor da Vitamina A. Inclusive, “a gente tem déficits muito grandes nutricionais relacionados a essa vitamina”, alerta o biólogo Edson Pablo.

O betacaroteno é a base de uma biotecnologia desenvolvida no CBA. Cientistas descobriram que essa propriedade, quando incorporada a um filme (plástico), pode conservar por mais tempo alguns alimentos, como frutas e carnes.

“Estamos desenvolvendo um protótipo, utilizando esse composto do betacaroteno dentro desse plástico, incorporado, para que esse composto seja liberado de forma gradual no alimento e, a partir desse momento, quando houver o contato desse composto com a fruta ou a carne, como ele tem essa propriedade antioxidante, ele conseguir conservar esse produto”, explica o biólogo.

Ainda não há no mercado para a aplicação dessa tecnologia amazônica, mas há prospecção de que se comercialize o quanto antes. “Esse é um protótipo para uma empresa. Estamos aprimorando. Nesse caso, é uma substância que será incorporada dentro do alimento”.
Plástico x Bioplástico

A sacola plástica convencional é completamente feita com polímeros derivados de petróleo, que para ser extraído polui. Quando descartada no lixo, demora 200 anos para degradar.

Um saco produzido com resíduos de sementes é feita totalmente com recursos renováveis: “são resíduos, celulose extraída daqui. É um processo que a gente mesmo faz com amido de milho e de cará, fécula de batata e de mandioca, tudo o que planta e dá novamente”, diz Flávio.

Com o que provém do milho, ele assegura que dá até para garantir uma produção em grande escala. “Além da vantagem de ser renovável, tem a questão de biodegradabilidade, que a gente já testou aqui que após ser enterrado, esse plástico leva 30 dias para desaparecer completamente”.

O “microplástico” presente nas sacolas é um problema para a fauna, pois os peixes consomem, e para a vida humana, pois “a gente consome água com microplástico e isso tem causado diversas doenças que nem sabemos de onde vem”.

*AMAZONAS ATUAL

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